As férias com os avós
- Daniela Delias

- 5 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

As férias na casa da vovó e do vovô eram as mais esperadas. Recordo de sempre ser recepcionada com um abraço apertado e café passado. Sempre havia uma comida deliciosa sendo feita, e ela tinha um tempero único. O mês passava voando, mas eram tantas aventuras vividas!
Durante a infância tive muita dificuldade para acordar cedo, mas na casa da avó às 6:30 já estávamos de pé. Meu avô era sempre o primeiro a acordar. Antes mesmo que o sol se insinuasse pelas frestas da janela, o som do rádio já preenchia a casa. O programa preferido deles chamava-se “O café com o rei”, uma coletânea das canções de Roberto Carlos. Acho que foi ali, entre uma risada e outra, que meu gosto musical começou a se formar. Aos dez anos eu já sabia de cor melodias que muita gente adulta não conhecia. E, ainda assim, perdia feio para eles, que eram os verdadeiros fãs.
Como meus avós viviam em uma região ribeirinha, a qual só se tem acesso por meio de barcos, lanchas e balsas, cada viagem até lá era uma pequena aventura, cuja organização durava um mês. Naqueles dias, a ansiedade tomava conta do meu corpo: eu me imaginava correndo pelo quintal e revendo os amigos, e a alegria não saia da central de comando. Mas o medo também me acompanhava: eram duas horas de travessia pelo rio Amazonas, e eu sempre fui meio medrosa. “Bora, Bilu”, dizia meu avô, tentando me dar coragem. No começo, ele não tinha muito sucesso, mas hoje vejo que sua frase ficou navegando em mim. É vô, o senhor sabia bem o que fazia. Entre o medo e a coragem, aprendi a atravessar rios, e talvez também a vida. Eles também eram acolhedores, ficavam preocupados quando um de seus netos adoecia e estavam sempre dispostos a ajudar.
John Bowlby, psicanalista britânico, falava em sua teoria do apego sobre os laços profundos que criamos com quem nos faz sentir seguros: laços que nos permitem explorar o mundo sem tanto medo de nos perder. Penso nisso quando lembro de ter ligado para meus avós assim que passei no vestibular. Do outro lado da linha, a alegria deles parecia atravessar o ar e me envolver como aquele abraço de infância. Até hoje, cada conquista minha parece ecoar naquela mesma entonação de felicidade que só eles sabem ter.
Além dos laços de apego, meus avós me emprestaram os seus gestos. O psicólogo canadense Albert Bandura, ao abordar em sua teoria da aprendizagem social o conceito de imitação, sugeriu que ao imitarmos outras pessoas também aprendemos. Quando observava a minha avó limpando a casa, por exemplo, eu pegava a vassoura e fazia os mesmos movimentos, ainda que sem muita coordenação. Bastava ver a forma como o meu avô tomava o seu cafezinho depois do almoço, e lá estava eu pedindo um pouco para fazer igual.
Dizem por aí que “os avós deviam ser eternos”. Talvez sejam, não no tempo, mas no modo como deixam rastros em nós. Vivem em cada ensinamento simples, em cada risada compartilhada, em cada tentativa de ensinar algo novo, como atender a uma chamada de vídeo ou encontrar o canal certo na televisão. O tempo passa: os netos crescem, os avós envelhecem. Mas as lembranças seguem teimosas, misturando cheiros, vozes e gestos. No fundo, todos guardamos um pouco daquele doce escondido, do cuidado disfarçado em um prato farto, do olhar que acreditava nas nossas pequenas loucuras. É assim que eles permanecem: silenciosamente, nas entrelinhas, mas para sempre.







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