As palavras que nos inventam
- Daniela Delias

- 25 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Fui alfabetizada em casa, antes do indicado na escola, enquanto brincava de escolinha com a minha irmã mais velha, hoje pedagoga e naquela época já professora por vocação. Ela escrevia em um quadro verde e eu repetia no meu caderno. Foi assim que entrei na escrita, não pela obrigação, mas pelo afeto. E talvez seja por isso que, até hoje, quando penso na minha relação com as palavras, me vem à lembrança esse momento inaugural, como se a linguagem tivesse me recebido pelas mãos de alguém que me amava.
Foi a minha irmã que me ajudou a abrir as portas do mundo literário e de lá eu nunca mais saí. Logo vieram os gibis da Turma da Mônica, que me mantinham absorta do mundo real por horas. Depois os clássicos infantojuvenis, as trilogias românticas e as sagas de fantasia. Eu lia e relia as mesmas histórias, não pela novidade, mas pelo prazer de ver a forma com que os autores descreviam e construiam mundos.
Freud, o fundador da psicanálise, descreve o “prazer preliminar”, uma ideia que aponta que o prazer do leitor não vem apenas da história contada, mas do modo como ela é apresentada, da forma que toca, que mobiliza e que ecoa. Por isso, mesmo quando a história era conhecida, a leitura seguia trazendo algo novo. Minha memória nunca foi das melhores, o que ajudava, mas havia também a aposta de que, mesmo que as palavras permanecessem iguais, a leitora já não era mais a mesma.
Fui descobrindo que as palavras não são apenas ferramentas de comunicação: elas são abrigo. Defendem o sentido que buscamos para poder significar o mundo. Lacan, um psicanalista francês, dizia que somos “falados” antes de falarmos, porque a linguagem existe antes de nós e nos recebe quando chegamos ao mundo. Isso quer dizer que as palavras, os nomes, as histórias e até as expectativas da família já estavam ali antes mesmo de alguém aprender a falar, a ler ou escrever e é por meio delas que começamos a nos reconhecer. Quando alguém diz “ela é assim”, quando nos dão um nome, quando descrevem como fomos enquanto bebês, tudo isso são significantes que nos antecedem e que vão moldando nossa forma de existir. São marcas que antecedem o sujeito e nas quais cada um de nós tenta encontrar um lugar possível. Antes mesmo de sabermos o que queremos dizer, as palavras já nos atravessaram e, de algum modo, nos escreveram.
A alfabetização, percebo hoje, não foi apenas aprender a juntar letras e sílabas. Foi aprender a existir dentro da linguagem. Foi descobrir que o mundo tem nome, que as coisas podem ser chamadas, que há diferença entre uma letra e outra, entre um sentido e outro, e que é justamente nessa diferença que a gente pode inventar algo novo. Quando escrevo, ainda sinto que estou ali, sentada na “sala de aula” da minha irmã, repetindo sons, juntando letras, tentando decifrar o mundo entre fonemas e sílabas. Sigo brincando de escolinha na tentativa de organizar o que me atravessa, de dar forma ao que escapa, de construir pontes entre aquilo que sinto e aquilo que consigo dizer.
A atenção às palavras não é mero capricho do escritor e do psicanalista: é a possibilidade de ver ser criada no mundo a representação da emoção, da vivência, do subjetivo, do que antes era indizível. Porque escrever é isso, inventar um modo de contar o mundo. É costurar tempos, sensações e lembranças. Escrever ainda é um gesto de amor. Um laço que começa na mão da minha irmã e se estende até aqui, onde sigo tentando nomear aquilo que me funda e me move.







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