Tem coisas que são como uma máquina do tempo
- Daniela Delias

- 19 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

Hoje me peguei observando minha estante da sala, explicando para uma amiga sobre cada coisa que estava ali, a história por trás de cada objeto: livros, velas, decorações, crachá, chapéu de aniversariante. Mas, entre tudo isso, estavam alguns brinquedos que trouxe da casa onde cresci e, quando comecei a falar deles, aconteceu uma coisa curiosa. Eu estava ali, adulta, mas bastou encostar naquelas lembranças para que uma parte pequena de mim voltasse a brincar. De repente, os brinquedos falavam, interagiam, resolviam dramas imaginários comigo. Ainda hoje lembro da bonequinha da Lúcia, de Nárnia, que veio de um McLanche Feliz e que eu vivia perdendo e reencontrando, como se ela fizesse questão de me lembrar do quanto era importante para a minha criança.
Na verdade, não é só sobre brinquedos. É sobre tudo aquilo que o tempo guarda no corpo da gente. Até hoje eu sinto o cheiro do Chuí, apesar de ninguém entender como é. Quando criança, viajávamos todas as férias para o Uruguai e ficávamos em casinhas brancas perto da praia. Íamos ao free shop quando o dólar estava aceitável e voltávamos com caixas de alfajor, além da parada obrigatória na padaria da praça antes de voltar para Rio Grande. O cheiro da cidade, o gosto das comidas… tem lembrança que se instala na gente como se tivesse comprado imóvel na memória.
Talvez Winnicott desse risada ao me ver observando com carinho todas essas coisas que guardo. Ele dizia que esses objetos não são apenas brinquedos: são portos seguros em miniatura, primeiros auxílios emocionais que escolhemos para nós mesmos. Eles carregam cheiros, texturas e histórias que lembram que existe amor por perto, mesmo quando os braços que nos acolhiam estão ocupados. É convivendo com o brinquedo, o ursinho, a boneca, que a criança descobre uma coragem novinha em folha: a de se aventurar pelo mundo sem se sentir abandonada. O objeto transicional é a prova de que independência e carinho podem caminhar lado a lado, e talvez seja por isso que alguns deles nunca nos deixam de verdade.
Mas é engraçado como a vida segue ciclos e, apesar de todo e qualquer ano correr de janeiro a dezembro desde que o mundo é mundo, ainda sim o final dele segue sendo magicamente significativo. Dezembro é o reino oficial dos objetos que salvam. É como se o ano todo ficasse ensaiando para a estreia de Natal. As comidas ganham mais sabor, as tradições brilham mais forte e até os presentes escondidos debaixo da árvore parecem conspirar com a memória. Dezembro nunca chega sozinho: vem carregando um perfume de ansiedade misturado com aquele sussurro famoso: “então é Natal, e o que você fez?”. E a criança dentro de nós, que parecia tão quieta, chega correndo para abrir o presente.
No fim das contas, talvez o presente mais precioso seja perceber que a infância não passou, ela apenas se tornou a parte de nós que sabe, melhor que ninguém, onde encontrar aconchego quando o mundo aperta.







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