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Tradições que abraçam


É de praxe que, em todo final de ano, a gente se pergunte: “Como esse ano passou rápido, né?”. Eu, pelo menos, sempre ouço alguém dizer isso. O tempo passa quase sem percebermos, e a construção daquele ano escorre por entre os dedos, como se um filme passasse em nossa cabeça.


De repente, o “fim de ano” chega mais cedo do que esperávamos. Entramos em outro ritmo: agendas cheias, pouco tempo de respiro, “corre pra lá, corre pra cá”. Uma sensação de que há pendências demais para resolver em poucos dias. E então vêm as festas de fim de ano: Natal, Ano Novo, aniversários, comemorações. Aquelas celebrações que se repetem a cada dezembro, marcadas por cheiros, sons e gestos familiares. Colocar a estrela na ponta da árvore de Natal, ficar na ponta do pé para tentar enxergar o que minha avó cozinhava, reunir os primos que há tanto tempo não via, cantar “Adeus ano velho, feliz ano novo”, são lembranças que trazem o calor das tradições.


O psicanalista inglês Donald Winnicott dizia que é no ambiente afetivo que o ser humano encontra segurança para se desenvolver. Talvez por isso as tradições de fim de ano tenham tanto valor: são como esse ambiente que nos acolhe, mesmo quando o tempo parece escapar. Montar a árvore, ouvir as mesmas músicas, rever pessoas queridas... tudo isso cria uma sensação de continuidade, um colo simbólico que nos lembra de onde viemos e nos prepara para seguir.


Essas festas são tradições culturais marcadas por afetos, memórias e lembranças que atravessam gerações. Mais do que datas comerciais, representam histórias, vínculos e celebrações da vida, reunindo as pessoas que amamos, sejam laços de sangue ou não. Porque, no fim, o que realmente importa não são os presentes recebidos, mas o amor compartilhado, o tempo dedicado e a presença. São essas presenças que encerram o ano e, silenciosamente, nos preparam para o próximo.


Os rituais que repetimos – acender uma vela, fazer uma ceia, abraçar alguém à meia-noite – não são apenas tradições, mas formas simbólicas de dar sentido ao tempo. Eles nos ajudam a organizar o que foi vivido, a elaborar as ausências e a reafirmar os laços que permanecem.


Talvez por isso, mesmo em meio à correria e à nostalgia, o fim de ano desperte em nós uma ternura particular: ele nos reconcilia com o tempo. É quando percebemos que viver é, inevitavelmente, passar e permanecer através daquilo e daqueles que amamos.

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