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Calma, eu ainda não sou mãe...


...mas, desde cedo, carrego uma vontade mansa e profunda de ser - não apenas de gerar, mas de cuidar de um jeito diferente, talvez oposto ao que conheci. A maternidade me ronda em silêncios, sussurra nos momentos em que aprendo a me acolher como jamais fui acolhida. Descobri, nos últimos anos, que boa parte do que eu chamava de "personalidade" era, na verdade, a menina ferida que não teve colo e que aprendeu a se moldar ao que era esperado, e não ao que ela precisava de verdade.

Entre sessões de terapia e noites mergulhada em conteúdos sobre criação respeitosa, cama compartilhada e acolhimento emocional, percebi: eu não queria apenas ser mãe. Queria quebrar o ciclo. E isso começa no jeito como cuidamos de nós mesmas antes mesmo de cuidar de alguém.

Passei anos acreditando que sofrimento educava. Que gritos ensinavam. Que amor era algo a ser merecido. Até que me vi - adulta, com boletos, expectativas e crises existenciais - repetindo padrões, entrando em relações que me feriam, carregando culpas que não eram minhas. Precisei parar. Olhei para dentro. Ali encontrei aquela menina que sentia demais e falava de menos. Ela me pedia baixinho: “me escuta, por favor”. Foi então que percebi que muitos dos pensamentos que ocupavam minha mente não vinham de mim, mas da cultura familiar que me rodeava.

Quando comecei a estudar o tema, descobri que meu corpo sentia o que artigos e estudiosos afirmavam décadas antes. John Bowlby, por exemplo, já dizia que os laços afetivos da infância nos acompanham como moldes invisíveis. Em outras palavras, a forma como nos vinculamos aos nossos cuidadores influencia - muitas vezes sem que a gente perceba - a maneira como confiamos, como reagimos ao abandono, como lidamos com a solidão e com a intimidade.

Foi ele quem formulou a teoria dos tipos de apego: o seguro, formado quando há presença e acolhimento; o ansioso, quando o cuidador é inconstante; o evitativo, fruto de um ambiente emocionalmente frio; e o desorganizado, quando o próprio cuidador se torna fonte de medo. Esses moldes silenciosos nos acompanham até a vida adulta e, como apontam diversos estudos, os traumas da infância podem moldar a mente, o corpo e até o cérebro. E eu os sentia em mim: nos meus relacionamentos, na dificuldade em confiar, na culpa que me invadia cada vez que ousava colocar um limite.

Mas Bowlby também nos lembra que o apego é um processo vivo. Se é nos vínculos que adoecemos, é também neles que podemos nos curar. Por isso, hoje procuro me aproximar de quem me acolhe inteira, quem escuta também a minha criança. E, mais importante ainda, aprendi que o vínculo mais essencial de todos é comigo mesma. Um vínculo que agora é inegociável.

Ainda não sou mãe. Mas agora, finalmente, sou abrigo para mim.

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© 2022 por NUPPADES/FURG

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