Meu malvado favorito
- Daniela Delias

- 4 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

Esta história não é fácil de se contar. Tem todos os ingredientes para dar certo, ainda que revele falhas de um filho e de um pai, ambos aprendendo, à sua maneira, a desempenhar papeis em uma relação: a nossa. A maturidade, nesse caso, é como o fermento: essencial para que esse bolo cresça, assente e esteja pronto para ser compartilhado com afeto.
Hoje consigo enxergar sua batalha para me fazer bem. Sei que, ao assumir esse papel, você não estava pronto. Só tinha amor por mim e vontade de me ver crescer. Na época, nenhum de nós tinha maturidade suficiente. Eu, criança, não compreendia o quanto ser pai era desafiador; e você, adulto, precisou aprender em tempo real como conduzir aquela missão, mesmo sem o vínculo biológico — com regras e gestos moldados muitas vezes na incerteza, como quem cozinha sem receita exata.
Foi nesse ambiente nebuloso que surgiu o primeiro choque entre nossos mundos. Pessoas diferentes tentando formar uma nova família e enfrentando os desafios diários com um objetivo em comum: ficar juntos. Para alguns, a convivência acontece de forma natural. Para outros, como nós, exigiu persistência e determinação. E é justamente aí que percebemos o quanto queríamos e queremos estar juntos.
No começo, você era um amigo, alguém divertido. Depois, virou um tio cuidadoso. Até que, de repente, você se tornou o "malvado favorito", aquele que dizia “não” para o doce antes do jantar, que trocava o videogame pelo dever de casa, que segurava firme minha mão para atravessar a rua, tirando o “friozinho na barriga” da aventura. Hoje entendo: você me guiava, mesmo que eu não soubesse disso. E era nesse gesto cotidiano que você se tornava, aos poucos, um herói disfarçado de vilão.
Ser padrasto é um ato de coragem. Você abraçou a responsabilidade de um pai sem garantias de reconhecimento. Carregou esse laço no coração, mesmo com todas as dúvidas. Talvez eu só consiga retribuir agora, ao compreender o quanto você se dedicou, mesmo errando, mesmo sem certezas. Afinal, aprendíamos juntos — você a ser pai, e eu a ser filho. E havia ainda outro ingrediente nesse bolo: a felicidade da minha mãe. Aos poucos, percebi como sua presença aliviava o peso dela. Era bonito ver vocês dois dividindo as tarefas, ainda que com estilos diferentes. Construir um novo lar foi um desafio. Afinal, o que já existia precisava ser respeitado, e o novo, acolhido. E assim fomos recriando os sabores da nossa casa.
Reconfigurar uma família não é fácil. Leva tempo. E tudo bem. Os conflitos existem, especialmente para a criança, que ainda não entende a complexidade da situação. Mas com cuidado, presença e escuta, dá para transformar uma massa crua em algo delicioso, mesmo que nem sempre saia perfeito.
Segundo dados do IBGE (2022), mais de 5,5 milhões de crianças brasileiras vivem sem o nome do pai na certidão de nascimento, o que evidencia a presença constante da ausência paterna no cenário familiar. Estudos sobre a parentalidade indicam que a participação ativa de uma figura paterna — seja ela biológica ou não — desempenha um papel importante na construção da autonomia, da regulação emocional e do senso de pertencimento das crianças. Ter você ao meu lado, mesmo que no improviso e na tentativa, fez toda a diferença. Em meio a tantas histórias marcadas pelo vazio, a minha foi preenchida com afeto, limites e presença. E hoje eu sei: ser pai não é uma questão de sangue, mas de escolha — e você escolheu estar.







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