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O que não cabe no feed


Querido diário, já faz um tempo que venho desbloqueando o celular toda hora, em busca de sinal de que alguém lembrou de mim. Uma curtida, um emoji, qualquer coisa. Quando eu era criança, eu só vivia. Agora parece que eu tenho que mostrar que tô vivendo. Nem sempre eu tenho o que dizer, mas mesmo assim posto. Uma foto antiga, uma legenda impactante, foto de um momento marcante… Não importa. O importante é aparecer lá de vez em quando. Nas redes sociais, parece que se eu sumo, ninguém lembra que eu existo. Eu imaginava que depois dos quinze anos eu teria mais amigos. Ontem mesmo, fiquei quase três horas sem nenhuma notificação. Três. Horas. É estranho, porque fico tentando não ligar pra isso… mas ligo. Quando a tela acende, parece que eu existo. Que tem alguém me vendo.


A verdade é que eu nunca sei direito o que tô sentindo. Às vezes acho que tô triste, me sentindo meio sozinha, mas aí coloco um filtro, uma música legal no story, e parece que alguém me reconhece. Parece que eu consigo mostrar quem eu sou, ou pelo menos o que eu acho que os outros vão gostar de ver de mim. Até que dá certo, pelo menos enquanto alguém responde. Mas tem dias que nem isso funciona. Tem dias que eu me olho no espelho e não sei quem tá lá. Porque não é a mesma da selfie que tirei minutos antes, nem a que os outros acham que eu sou. É uma outra pessoa.


Outro dia, a professora perguntou como eu tava. “Bem”, eu disse. Porque é isso que eu sempre digo. Mas eu queria ter dito que tava me sentindo meio feia, meio sozinha, meio esquisita, meio sei lá. Mas é difícil reconhecer isso. Parece que tá todo mundo tão bem, que acho que tenho que ficar bem também. É confuso. Parece que tenho muitos amigos, quando posto alguma coisa sempre tem muitos comentários e vários likes. Me sinto até como se tivesse alguém pra conversar, pelo menos por um tempo. Mas parece que ninguém me conhece de verdade.


Ouvi dizer que tinha um psicanalista que dizia que a gente constrói um Ideal de Eu. Freud. Acho que é esse o nome dele. Vi em um vídeo que passou pela minha for you. Mas era tipo assim, como se tivesse uma imagem perfeita que tentamos alcançar, pra sermos aceitos, amados, reconhecidos. Na adolescência, esse ideal é cruel. Porque ele não tá só na nossa cabeça. Tá no feed, no story, no corpo das outras meninas, no número de seguidores. Tá no olhar que os outros jogam pra cima da gente.


E quando a gente não consegue ser como eles esperam, parece que falhou. Aí vem a vergonha. O silêncio. A comparação. E pra lidar com tudo isso, a gente aprende a mostrar só o que é “bonito”. Eu posto como se estivesse bem, e acho que ta todo mundo acreditando. É como se o mundo só me enxergasse pela tela. E mesmo assim, só a parte que eu deixo aparecer. Talvez eu só quisesse que alguém me visse fora do story. Com tudo que não cabe na legenda.

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© 2022 por NUPPADES/FURG

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