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O tempo e uma poça d'água

Acordo em uma segunda-feira, está chovendo desde semana passada. Por que eu fui inventar de lavar roupa ontem? Nunca vai secar com esse tempo. Saio apressada, já imaginando a hora que chegaria à noite. Se tivesse saído quinze minutos antes pegaria menos trânsito, pensava antes mesmo de abrir o carro. Já quase na esquina lembro que esqueci meu crachá e tenho que voltar. É impressionante a quantidade de coisas que esquecemos quando estamos tentando lembrar de tudo. No caminho de volta pra casa, mais apressada do que já estava, diminuí a marcha ao ver duas crianças no meio da rua. De uniforme, mochila nas costas, correndo e rindo enquanto pulavam nas poças d’água que se formavam na rua esburacada. A chuva fina parecia não incomodar, pelo contrário, tornava a brincadeira ainda mais divertida. Uns passos atrás, uma mulher com o guarda-chuva entortado pelo vento em uma mão e as chaves do carro na outra, gritava aflita: “Voltem aqui agora, vocês estão atrasados pra escola. Tá frio! Vocês vão ficar doentes!”. Mas eles nem ouviam. Ou fingiam não ouvir.


Aquela cena ficou insistentemente na minha cabeça pelo resto do dia. De vez em quando, enquanto olhava o relógio no canto da tela ou contava mentalmente quanto tempo ainda restava para a próxima tarefa, a imagem dos dois pulando nas poças d’água voltava, impondo um novo olhar sobre aqueles segundos apressados que corriam no visor. Fiquei pensando em como a infância resiste bravamente à lógica da utilidade e da pressa, essa que tanto molda o mundo dos adultos. Enquanto contamos o tempo, elas inventam os minutos. Caminham em zigue-zague enquanto o mundo inteiro segue em linha reta, obedientes até a linha de chegada.


Vygotsky e Winnicott, autores que pensavam sobre o desenvolvimento infantil a partir da importância das interações sociais e culturais, já diziam que brincar é mais do que distração ou passatempo: é trabalho sério da infância. É no faz-de-conta, na curiosidade livre, nas pequenas explorações sem finalidade imediata que as crianças desenvolvem funções essenciais da mente como a imaginação, a linguagem, o pensamento simbólico. A infância precisa do tempo largo, sem serventia aparente. A pressa, que aos olhos adultos parece ganho de tempo, para a criança é roubo de mundo.


Mas nem sempre é simples respeitar esse tempo outro. A vida adulta se enche de prazos, boletos, horários fixos. Para muita gente, o luxo de perder tempo, ou até de ter tempo a perder, é privilégio raro. Tem quem desperte antes do sol, enfrente horas de transporte público, trabalhe em turnos dobrados. Para esses, o tempo da infância precisa caber no breve intervalo entre uma tarefa e outra. É compreensível que o adulto apresse, acelere, ajuste o passo da criança ao compasso da rotina que vive. Ainda assim, é nesse pequeno instante quando uma criança quer amarrar o tênis sozinha ou só sai de casa pulando por cima do sofá porque “o chão é lava”, que talvez valha a pena se perguntar: será que estamos mesmo com tanta pressa? Será que o que nos aguarda dali a cinco minutos é mais importante do que o mundo que ele está criando agora, de cadarços tortos e passos demorados?


Esse exercício de paciência não é um romantismo vazio. É uma escolha difícil, atravessada pelas realidades de quem cuida, especialmente de quem cuida sem rede de apoio, sem tempo, sem descanso. Por isso mesmo é que precisa ser pensada com cuidado, sem culpa, sem peso, mas com consciência: o tempo da infância não volta. E talvez o que hoje nos parece atraso seja, na verdade, o verdadeiro ritmo de viver.

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