Saudade do Bigode
- Daniela Delias

- 17 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

Me lembro de você sentado na ponta da mesa. Bastava um comentário seu para todos os olhares se voltarem na sua direção, não porque você exigia isso, mas porque queríamos te agradar, como uma espécie de retribuição por todo carinho que você tinha conosco.
Parecia que você nunca sentia medo ou receio de que as coisas não dessem certo. Sempre havia a certeza de um almoço para comemorar uma semana bem vivida, a fortaleza de uma família reunida. Essa segurança moldou nossa infância, crescemos certos de que fazíamos parte de algo maior, de um todo que tinha você como centro. De você partia a nossa união. Você era a origem, o início. Nos sentíamos seguros.
Todo final de semana nosso ponto de encontro era você. Fosse um churrasco ou uma macarronada, queríamos estar perto de quem nos deixava felizes. Foi a partir de você que as tradições da família foram criadas. Sua liderança natural inspira até hoje momentos de união, os quais buscam manter a tradição que você recebeu de seus próprios avôs. Você não deixava transparecer sua vulnerabilidade, o que nos fazia vê-lo como uma certeza inabalável. Certeza de afeto, de colo, de proteção. Mas ninguém nos ensina, quando crianças, que até nossas maiores certezas têm hora de partir. Quando você se foi, a casa pareceu ficar maior e mais vazia de uma só vez. O silêncio do seu canto na mesa virou um espaço que ninguém mais ocupa. E é aí que a infância encontra o luto: quando a fantasia de eternidade tropeça na realidade da ausência.
John Bowlby considerou a perda de uma figura de apego um evento muito impactante na infância. Não importa se é pai, mãe ou avô: quem cuida da gente vira abrigo, e quando vai embora deixa um vazio que ecoa por dentro. Crianças não sabem nomear o luto, mas o sentem inteiramente: na saudade do cheiro, da risada, do lugar da mesa que costumava ser ocupado e que agora está vazio.
Por muito tempo, acreditou-se que as crianças não seriam capazes de entender a morte. Mas a psicologia mostra que entendem à sua maneira. Imaginam que o avô virou estrelinha, que vai voltar no Natal, que está dormindo num sonho bonito. É o jeito que temos, ainda pequenos, de dar forma ao buraco que fica. Nada substitui a imagem de um avô, ele apenas passa a estar presente de outras formas nas lembranças de momentos simples, que preenchiam um espaço como nada mais seria capaz.
Todo luto pode representar um processo de reconstrução, no qual os pequenos precisam de uma mão adulta para dar sentido ao que parece não ter. É importante que a criança saiba que, mesmo sem o avô por perto, o amor não some. Ele muda de lugar. Vira foto na estante, história repetida no almoço de domingo, pedaço do sobrenome que orgulha quem o carrega.
É assim que a infância atravessa o luto: guardando no peito aquilo que não se explica. É quando o herói perde a capa e vira memória, mas continua sendo o porto seguro que molda quem a gente é.
Hoje, visto suas roupas antigas para sentir você perto. De vez em quando pego seu chapéu, olho no espelho, e penso: ainda somos as mesmas crianças que você mimou até o último segundo. E, de algum jeito, continuamos a ser. Porque mesmo sem te ver sentado na ponta da mesa, é seu sorriso que enfeita tudo que somos.
Saudade do seu bigode. Da sua voz calma. Da sua presença que, mesmo ausente, ainda me faz acreditar que heróis nunca vão embora, eles só mudam de canto. Saudade, vô.







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