Sobre uma tal abelha rainha
- Daniela Delias

- 11 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

A chegada de um filho costuma trazer muitos sentimentos: amor, expectativa, medo, frustração. Com isso, muitas dúvidas também tendem a ocorrer. Entre as perguntas mais frequentes, costumamos ouvir: Como ser uma boa mãe? Será que saberei cuidar do meu filho? Vou conseguir dar conta de tudo?
Na tentativa de aliviar essa tensão, muitas cuidadoras recorrem aos meios digitais. Querem entender o que é o maternar, buscar outras vivências e, principalmente, se sentirem menos sozinhas. Mas, ao invés de conforto, não raras vezes encontram um cenário de “perfeição”: mães que fazem tudo com um sorriso no rosto, sem demonstrar cansaço. Então, o lugar que foi usado como busca de apoio acaba se tornando cheio de medos, um espelho distorcido de como uma mãe poderia ser.
Com o crescimento das influenciadoras digitais e suas maternidades registradas em vídeos, surge uma preocupação com o impacto que isso causa nas mulheres que as assistem. A mãe real se sente insuficiente ao lado da mãe editada. Essa comparação pode ser vivida durante todo o período de gestação e após o nascimento do bebê. A exposição constante a estes conteúdos também é uma forte geradora de culpa. A cuidadora, já sobrecarregada, sente-se ainda mais pressionada a dar conta de tudo. Afinal, se a influenciadora consegue, por que ela não? Além disso, é esperado que as mães desempenhem vários papéis sem pedir ajuda, como se dividir a responsabilidade do cuidado com o bebê fosse um sinal de fraqueza.
Winnicott, um pediatra e psicanalista inglês, criou o conceito de "mãe suficientemente boa", que descreve a mãe que atende adequadamente às necessidades do bebê, sem necessariamente buscar perfeição. Ela falha de maneira humana, permitindo que a criança aprenda a lidar com frustrações e desenvolva autonomia. Mesmo que essa teoria tenha sido proposta em meados do século XX, ela continua atual: quando a maternidade é romantizada nas redes sociais, cria-se um padrão inalcançável que ignora justamente esse valor do "suficientemente bom", gerando culpa e insegurança.
Contudo, é urgente sair dessa caixinha onde colocaram as mulheres que se dedicam à maternidade. Ainda existe a ideia de que mães dão conta de tudo sem reclamar. Mas as mães também precisam de ajuda. A maternidade transforma, exige uma rede de apoio real, feita de escuta, presença e acolhimento. Apesar do importante papel da abelha rainha na colmeia, ela precisa de toda a colônia para que as coisas funcionem bem. A mãe muitas vezes é colocada nesse posto solitário para reinar. Será que todos esses conteúdos que trazem comparação e culpa não podem ser apresentados de uma maneira diferente?
A maternidade não precisa ser um pesadelo, mas também não é feita só de flores. Ela traz consigo dias difíceis, noites mal dormidas e aprendizados diários. Há momentos de muita felicidade, e cada pequena conquista do bebê também pode se tornar uma conquista da mãe. Porém, também existem momentos de solidão, em que parece que os choros não terão fim. Ser cuidadora é uma trabalho contínuo, não tem receita ou manual. É preciso que as mães saibam que não estão sozinhas, e que, mesmo com algumas idealizações sendo frustradas, os dias difíceis fazem parte do caminho com seu filho.
Nem tudo que assistimos no ambiente virtual representa toda a realidade, pois se trata de um recorte da vida de alguém, um momento que foi escolhido para ser transmitido e que não necessariamente é o que a pessoa vive no dia a dia. Há espaços, mesmo que menos divulgados, que procuram retratar a maternidade de forma mais real, trazendo aspectos positivos e negativos e falando sobre os afetos envolvidos no período de desenvolvimento da criança. Falar sobre a diversidade de experiências é essencial, pois há inúmeras formas de sentir o maternar. Não existe manual para ser uma boa mãe, nem uma experiência universal para todas, pois o vínculo é construído dia após dia, com erros e acertos, o que o torna único. Talvez seja justamente na imperfeição do cotidiano que mora uma maternidade mais possível.







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