Uma base segura, um amigo
- Daniela Delias

- 27 de ago. de 2025
- 2 min de leitura

A sua casa tinha um cheiro de bolo recém assado que parecia nos receber antes mesmo da sua mãe abrir a porta. Lembro do quarto pequeno, dos brinquedos espalhados pelo chão e da sensação de que lá dentro o tempo corria mais devagar. Era nesse espaço simples que descobríamos segredos, inventávamos códigos e jurávamos que nossa amizade nunca teria fim. Você me deu um colar com a metade de um coração e disse que era para eu nunca esquecer de você, pois teria a outra metade. Eu ri, porque como seria possível esquecer quem dividia comigo as brincadeiras, figurinhas repetidas e até os choros escondidos no banheiro da escola? Naquele instante, eu realmente acreditava que éramos eternas.
Quem nunca teve grandes amigos quando crianças? Na infância, a amizade não exigia muito: bastava estender o pacote de bolacha no recreio, emprestar a boneca favorita ou correr lado a lado na hora do pega-pega. Às vezes, era só se colocar ao lado do outro quando uma briga surgia no pátio da escola. A lógica era simples e inteira, como só uma criança sabe sentir. O amigo não era apenas alguém de fora, mas quase um pedaço de nós mesmos, uma extensão que parecia indispensável. Não havia cálculo, nem condições: a amizade era absoluta, tão certa quanto o próximo encontro no portão da escola.
A amizade na infância é essencial para o desenvolvimento socioemocional: por meio do brincar, as crianças aprendem cooperação, empatia, partilha e enfrentam os primeiros pequenos conflitos, exatamente o que experimentamos no recreio, com a boneca emprestada ou o lanche dividido. O brincar não é só diversão: é nesse espaço que as amizades se formam, que as crianças aprendem a ouvir umas às outras, a lidar com brigas e a fazer as pazes. Brincando, elas descobrem mais sobre si mesmas e sobre os outros. Assim, a amizade vira um lugar de aprendizado diário, onde se aprende a confiar, a dividir vontades e a enxergar o mundo também a partir do olhar do outro.
Nesses momentos, os laços se constroem como uma base segura, uma espécie de extensão de si mesmo disponível para confiar e partir à exploração do mundo. Bowlby, psicanalista que desenvolveu a teoria do apego, diz que as amizades podem funcionar como essa “base segura” fora do ambiente familiar, oferecendo confiança e apoio para que a criança se arrisque no mundo, explore novas experiências e, ao mesmo tempo, saiba que pode contar com o outro em momentos de insegurança.
A amizade era leve, simples e espontânea: bastava um gesto, um sorriso ou uma brincadeira compartilhada. Hoje, na vida adulta, as amizades muitas vezes se veem atravessadas pelo tempo, pelas obrigações e pelas cobranças. Rir junto virou encontro marcado; confiar cegamente, desafio; sentir-se pertencente, algo que precisa ser cultivado com cuidado. E, mesmo assim, a lembrança desses momentos de despreocupação nos envolve com nostalgia, lembranças de risadas compartilhadas, de confiança sem medidas, de uma sensação de pertencimento que parecia absoluta. Ao mesmo tempo que nos potencializa a criar memórias, histórias conjuntas e possibilidades.







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