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Uma estrela diferente...

Uma estrela diferente…


Em um dia comum da infância, lembro de receber a notícia da morte de um cachorrinho, que não era meu, mas que era especial. Naquele momento, eu não entendi o que tinha acontecido. Muitas vezes eu ia à sua casa e esperava por ele. Como o meu amigo não aparecia, eu perguntava onde ele estava e não aceitava como poderia ter sumido “do nada”. Lembro que me disseram: “Agora ele virou uma estrelinha no céu!”. Por muitos dias eu observei o céu, procurando por essa estrela, o cachorrinho Domingos. Depois de um tempo, a partir da continuidade de sua ausência física e de conversas com familiares, percebi que ele não voltaria mais.

Quando falamos em morte, é comum que expressões como “bate na madeira!” ou “vira essa boca pra lá!” apareçam, pois é difícil falar sobre a finitude dos animaizinhos e das pessoas, principalmente quando os amamos. A palavra morte, mesmo quando nos tornamos adultos, vem carregada de inquietações, angústia e medo, por conta de algo que não vai mais voltar, que exige ressignificações e causa saudade, até mesmo um olhar de nostalgia. E quando a morte deixa de ser apenas uma palavra, passando a uma realidade, muitas vezes não conseguimos sofrer, chorar e processar a perda, devido à sobrecarga de tarefas que o mundo nos exige depois daquele acontecimento.


Na infância, as possibilidades de compreensão sobre a morte estão em pleno desenvolvimento. Entendê-la como um processo irreversível, por exemplo, não é algo possível para uma criança muito pequena. Além desse entendimento variar conforme a sua idade, também é muito importante considerar o seu vínculo com o que foi perdido e como essa notícia é comunicada por seus cuidadores. Assim como aconteceu comigo e com Domingos, expressões como “virou uma estrelinha”, “está dormindo”, “foi dar um passeio” e “foi para o céu” são comuns na tentativa de contar para a criança, de forma mais suave, a notícia sobre a morte. Arminda Aberastury, uma psicanalista que discutiu a percepção da morte na criança, apontou que quando um adulto se recusa a explicar com palavras o que é a morte, ele atrapalha o começo do processo natural de luto da criança, que diz respeito a poder entender e aceitar a finitude de um ente querido. É natural que isso aconteça, afinal é provável que o adulto também esteja triste. Contudo, o ideal seria sempre contar a verdade para que a criança compreenda de forma real essa finitude e possa expressar seus sentimentos perante o sofrimento.

O luto traz consigo uma possibilidade de reconstrução e reorganização, considerando todos os desafios com os quais precisamos lidar após uma perda. Trata-se de um processo que possui fases em que é possível experimentar sentimentos que são desconfortáveis e muitas vezes difíceis de lidar. Em toda e qualquer fase é importante destacar que o luto pode surgir não apenas pela perda de uma pessoa querida, mas também em situações como a perda de um emprego, mudanças de vida ou até mesmo pela ausência de objetos que tenham valor emocional. Qualquer circunstância que represente o fim de um vínculo significativo pode provocar essa sensação de vazio e ausência.

As crianças vivem muitos lutos ao longo de sua infância: a perda de um animal de estimação; a separação ou divórcio dos pais; a mudança de casa de escola ou de cidade; o afastamento de um amigo próximo; a mudança de um irmão mais velho ou a chegada de um irmãozinho mais novo; a perda de um objeto; a perda da identidade infantil na transição entre infância e adolescência…

Os lutos fazem parte do cotidiano das crianças. A cada nova descoberta, algo é deixado para trás. A cada nova brincadeira criada, outra é esquecida, e quando menos esperamos alguém que elas tanto amam acaba morrendo. Talvez os pequenos não possam nomear o que é o luto, mas sentem e expressam suas perdas brincando, criando, sendo crianças. O apoio dos cuidadores, da família e de pessoas próximas, através de uma escuta ativa e que valida os sentimentos, é muito importante nesse processo. Não sei se um dia a dor das perdas terá fim, mas ela se transforma na saudade de um amor que foi vivido, a presença que não pode ser vista, mas sentida e percebida.

“Mãe! Achei a estrela, e ela é a mais brilhante... Será que é o Domingos ali?”.

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